O câncer, a epidemia e a saúde pública

Paulo M. Hoff

O que representa uma década quando o assunto é medicina oncológica e seus avanços? Para alguns pode parecer muito tempo, mas para quem luta diariamente contra esta doença, complexa e cheia de mistérios, sabe que esse período não é longo. Falamos em uma década porque, para o câncer, esse tempo é o suficiente para torná-lo adulto. E bem adulto. Estima-se que até meados deste século esta se torne a principal causa de morte no país, ultrapassando as doenças cardiovasculares. Um dado que assusta, preocupa e que merece atenção.

Nas últimas décadas, a medicina oncológica conquistou importantes vitórias. Vivenciamos o surgimento de novos medicamentos e tratamentos que aumentaram significativamente a chance de cura e sobrevida de nossos pacientes. A evolução da genética, levando a identificação de genes responsáveis pela ampliação do risco de desenvolver alguns tipos de tumores, potenciais alvos para terapias dirigidas, além do desenvolvimento e disseminação de novos e modernos equipamentos, importantes para o combate ao câncer. Tudo isso trouxe uma enorme evolução, que poderia ter sido uma verdadeira revolução se a doença não nos acompanhasse e desafiasse continuamente nesta maratona.

Atualmente, o Brasil conta com diversos hospitais de ponta e que são referência para o tratamento oncológico. Há alguns anos, esta excelência no atendimento aos pacientes com câncer concentrava-se principalmente nos hospitais particulares, mas felizmente um número cada vez maior de unidades voltadas para o atendimento dos pacientes que dependem do Sistema Único de Saúde (SUS) também passaram a se destacar nesta área. Apesar dos elevados custos, dar atenção para a construção e custeio destes centros de excelência é não parar de lutar contra a doença.

Em 2008, o Governo de São Paulo e a Secretaria de Estado da Saúde investiram e inauguraram o Instituto do Câncer do Estado de São Paulo Octavio Frias de Oliveira, que é um bom exemplo da parceria entre tecnologia, qualidade e atendimento voltado para o SUS.

Três anos depois, o Icesp é hoje um dos melhores centros de referência de câncer do país, com atendimento mensal a quase 11 mil pacientes e com o maior parque radioterápico da América Latina. Só no último ano, o Instituto atendeu, na parte assistencial, mais de 12 mil novos casos de câncer. Um número assustador e que precisa ser levado a sério, principalmente porque muitos cidadãos ainda encontram dificuldade para ter acesso a um tratamento rápido quando são diagnosticados com esta terrível doença.

É preciso que o Brasil tenha muita iniciativa, vontade política e empenho para enfrentar o câncer, uma doença difícil e que está em franca ascensão. Com o envelhecimento da população, certamente teremos uma "epidemia" de casos de câncer no futuro próximo. É necessário que a sociedade se antecipe e se comprometa com investimento e criação de centros de referência regionais, que avancem mais rápido que a doença. E isso é possível.

O caminho ainda é longo, mas a experiência do Icesp e de outras instituições de renome, como o Inca (Instituto Nacional de Câncer), no Rio de Janeiro, prova que temos profissionais altamente qualificados e as condições necessárias para incluirmos o Brasil entre as nações que lideram o mundo no combate ao câncer. Podemos ser uma peça importante na realização de pesquisas científicas que servirão aos nossos pacientes e também a outras populações no mundo.

Paulo M. Hoff, oncologista, é diretor-geral do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo Octavio Frias de Oliveira (Icesp) e professor titular de Oncologia da Faculdade de Medicina da USP.

Fonte: Folha de São Paulo - 08/04/2011